A “Invariância” Histórica do Marxismo

Tradução de Vitor Teiú.

Durante o encontro do Partido Comunista Internacional em Milão, no ano de 1952, Amadeo Bordiga em 26 teses, explicou a “invariância” histórica do Marxismo, ao passo que explica a luta contra os setores modernizantes do Marxismo, considerados por ele piores que os ideólogos burgueses e Stalinistas, defendendo um caráter monolítico das posições do partido e do movimento em si.

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O termo “Marxismo” não é usado no sentido de uma doutrina que foi descoberta e introduzida por um indivíduo chamado Karl Marx, mas sim uma referência à doutrina que emerge com o proletariado industrial moderno que “acompanha” o último através de todo o curso de uma revolução social; e nós continuamos a usar o termo “Marxismo” apesar dos vastos campos de especulação e exploração que este fora usado por uma série de movimentos antirrevolucionários.

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Marxismo, em sua única definição válida, possui três grupos principais de adversários. O primeiro grupo: a burguesia, que proclama a economia baseada em commodities do capitalismo como permanente e sua substituição pelo meio de produção socialista como ilusória, esse grupo rejeita por inteiro a doutrina de determinismo econômico e luta de classes. O segundo grupo: autointitulado comunistas Stalinistas, que afirmam aceitar a doutrina Marxista de história e economia, mas advogam e defendem, até mesmo em países capitalistas desenvolvidos, reivindicações contrarrevolucionárias, são idênticos, se não piores que, às políticas (democracia) e economia (progressismo popular) de reformistas tradicionais. O terceiro grupo: os ditos defensores da doutrina revolucionária e seu método que, apesar de tudo, atribuem o atual abandono da mesma pela maioria do proletariado em defeitos e falhas na teoria inicial que devem ser “retificados e atualizados”.

Negacionistas—falsificadores—modernizadores. Lutamos contra todos os três, consideramos o terceiro grupo o pior de todos.

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A história da esquerda Marxista, do Marxismo radical, ou mais corretamente, do Marxismo em si, consiste em sucessivas campanhas defensivas contra várias “ondas” de revisionismo que atacaram os vários aspectos de sua doutrina e método, do início de sua formação monolítica e orgânica que pode ser datada ao “Manifesto” de 1848. Em outros textos, foram registrados os conflitos de três internacionais históricas contra utopistas, trabalhistas, libertários, reformistas e sociais democratas gradualistas, sindicalistas de esquerda e direita, social patriotas e comunistas populares nacionais. Esses conflitos afetaram a vida de quatro gerações e durante seus vários estágios não são identificados por uma série de nomes e indivíduos, mas com uma escola compacta e bem definida e, no sentido histórico, um partido bem definido.

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Esse longo e difícil conflito teria perdido sua conexão com a retomada da revolução se o movimento, ao invés de absorver a lição dessa “invariância” em sua luta, tivesse aceitado a ideia banal de que o Marxismo é uma teoria “que sofre numerosos processos de elaboração histórica” que mudam conforme eventos e lições aprendidas subsequentemente. Essa é a justificativa invariável de todas as traições que se acumularam com os anos, e explicam também derrotas revolucionárias.

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A negação materialista de que um ‘sistema” teórico ergueu-se em um momento da história (ou pior ainda, que surgiu da mente e se formou dos trabalhos de um homem, pensador e líder histórico em particular) e poderia irrevogavelmente se aplicar durante todo o curso do futuro histórico, suas regras e princípios, não devem ser entendidos no sentido de que não existem sistemas de princípios estáveis aplicáveis em longos períodos de tempo. Ao contrário, a estabilidade de um sistema e suas forças de resistência contra sua mutilação e até mesmo seu “melhoramento” constituem um elemento primordial na força da “classe social” a qual o sistema pertence, reflete, defende interesses e missão histórica. A sucessão de tais sistemas e corpos de doutrina e práxis não estão conectados ao advento de homens que definem estágios, mas sim a sucessão de “meios de produção”, isto é, as variâncias de organização material na vida de coletivos humanos.

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Apesar do fato de obviamente reconhecer o conteúdo formal e corpo das doutrinas de todas eras históricas como errôneas, o materialismo dialético não nega que estas eram necessárias em seu tempo, e muito menos imagina que erros poderiam ser evitados se sábios ou legisladores tivessem tido ideias melhores, e que isso teria permitido-os a perceberem seus erros e corrigi-los. Todo sistema possui sua explicação e razão de existência em seu próprio ciclo, e os mais significantes são mantidos inalterados e retidos em sua forma orgânica moldada no curso de longas lutas

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De acordo com o Marxismo, não existe progresso gradual e contínuo da história (especialmente) no que diz respeito à organização das forças produtivas, mas sim uma série de longos saltos adiantes que revolucionaram profundamente o aparato socioeconômico por inteiro. Esses saltos são verdadeiros cataclismos, catástrofes, crises que rapidamente se desdobram e mudam tudo em um curto período de tempo, destruindo tudo que já existiu há longos períodos de tempo; essas crises são como àquelas do mundo físico, as estrelas e o cosmo, geologia e a filo-gênese de organismos vivos.

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Como a ideologia de uma classe em uma superestrutura de meios de produção, não é formada pelo acrescento diário de grãos de conhecimento; surge entre a convulsão de uma hecatombe violenta e guia a classe que a representa, em forma monolítica e firme, no curso de uma série de lutas e conflitos até o próximo estágio crítico é atingido, até a próxima revolução histórica.

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Foram justamente as doutrinas do capitalismo, enquanto justificando as revoluções sociais do passado e as revoltas burguesas, que proclamaram que à partir desse momento, a História iria avançar por um caminho gradual e ascendente, sem mais nenhuma catástrofe social, por causa de seus sistemas ideológicos, em mudança sempre gradativa, absorveria o curso de novas conquistas de puro conhecimento aplicado. O Marxismo demonstrou a falácia de tal visão do futuro.

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Marxismo em si, não pode ser uma doutrina moldada e reformada todo dia com novas contribuições e substituição de suas partes (ou mais corretamente, remendada com fita adesiva e chiclete!), pois, apesar de ser o exemplo mais recente, ainda é uma das doutrinas que constituem a arma de uma classe explorada e oprimida que deve revolucionar instituições sociais, e que, ao fazê-lo, está milhares de anos à frente de seus rivais de influências conservadoras e formas tradicionais e ideologias das classes inimigas.

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Embora seja possível hoje—ou, na verdade, sempre foi possível desde o dia em que o proletariado apareceu no cenário histórico—discernir os esboços em que se desenha a História da sociedade futura sem classes e portanto sem revoluções, deve ser afirmado que, durante o longo período de tempo que se estende antes dessa condição futura, a classe revolucionária será capaz de preencher sua missão se conseguir agir e manter-se durante o curso de longas lutas se prendendo em uma doutrina e métodos que se mantenham estáveis. Essa doutrina e métodos serão estabilizadas em uma programa concreto, independente das flutuações drásticas em seu número de apoiadores e resultados dos estágios sociais e conflitos.

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Precisamente devido ao fato que o Marxismo nega qualquer tentativa de perseguir por uma “verdade absoluta” e não se vê como doutrina como uma manifestação do espírito eterno e razão abstrata, mas sim um “instrumento” do trabalho e uma “arma” de combate, postula que, nos momentos mais difíceis da mais dura batalha, não se deve abandoná-la, para “consertar”, uma de suas ferramentas ou armas, mas sim manter um pulso firme e determinado das boas ferramentas e boas armas desde o começo da guerra.

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Uma nova doutrina não pode simplesmente aparecer em qualquer momento histórico, existem certos momentos —por sua vez extremamente raros—nas eras históricas em que uma nova doutrina aparece como o flash de uma luz; se não se reconhecer o momento crucial e atentar-se o seu olhar à luz, em vão teria-se que apelar para foscas luzes de velas que o pedante academista ou combatente de pouca fé tenta iluminar o caminho adiante.

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Para o proletariado moderno que se formou nos primeiros países que sofreram grande desenvolvimento capitalista industrial, as tétricas nuvens foram embora pouco antes da metade do século XIX. A doutrina integral que acreditamos, onde devemos, e queremos acreditar, possuía toda a informação necessária para solidificar-se e delinear um processo de séculos. Essa posição ou se provaria válida, ou a doutrina cairia nas graças da falsidade; a declaração do aparecimento de uma nova classe com caráter, programa e função revolucionária própria na História teria sido uma declaração vazia. Como resultado, aquele que tenta substituir partes essenciais, teses ou artigos do “corpus” Marxista, em nossa possessão há quase um século destrói seu poder de maneira pior que alguém que completamente renúncia e a proclama como falha.

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O período “explosivo”, em que as novidades das novas posições fazem com que sejam claramente percebidas e estabelecidas com diferenças óbvio ululantes entre elas, é seguido por uma período em que sua principal característica era, e ainda é, grande estabilidade, como resultado da natureza crônica das circunstâncias, para que a dita “consciência” de classe não sofra nenhuma melhoria ou reforço, mas sim involução e degeneração. Toda história do Marxismo prova que os movimentos onde a luta de classes se recrudesce e a teoria retorna à suas origens e afirmações de expressão integral primeira: precisamos apenas citar a Comuna de Paris, a revolução Bolchevique e o período imediatamente após a Primeira Guerra Mundial no Ocidente.

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O princípio de invariância histórica das doutrinas que refletem as missões das classes em conflito, e até mesmo os momentos poderosos em que elas retornam ao seu tablado original, aplicam-se a todos períodos históricos. Esse princípio é oposto às suposições vazias de que cada geração e estágio intelectual são mais fortes de que seus predecessores, o clichê tolo do contínuo e incessante avanço do progresso cívico, e outros preconceitos burgueses, no qual poucos daqueles que se chamam Marxistas, estão salvos.

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Todos os mitos expressam isso, especialmente os mitos de humanos semideuses, ou de homens sábios que entrevistam o Ser Supremo. É inútil rir de tais histórias; apenas o Marxismo nos permitiu descobrir suas subestruturas reais e materiais. Raamá, Moisés, Cristo, Maomé, todos os heróis e profetas que atravessaram os séculos de história dos vários povos, são diferentes expressões desse fato real que corresponde a um enorme salto adiante no “modo de produção”. No mito pagão, a sabedoria, isso é, Minerva, não emergiu da cabeça de Júpiter por conta do que está escrito em inteiros volumes de escrita empoeirados, mas sim ao bater do martelo do deus trabalhador Vulcano, que foi chamado para curar uma enxaqueca que não encontrava seu fim. No outro extremo da história, em oposição à doutrina Iluminista da nova Deusa Razão, Gracchus Bebeuf se levantaria como um gigante, com sua apresentação crua e teórica, para dizer que a força física é uma força de avanço maior que a razão e o conhecimento.

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Também não carecemos de exemplos de restauradores que confrontaram deviações revisionistas e o papel que estes representaram, como Francisco de Assis em respeito à Cristo, quando o Cristianismo, que havia originalmente surgido para redenção social dos humildes, firmou residência nas cortes de senhores feudais; ou os Graco em respeito a Brutus; e tantos outros precursores de uma classe que ainda estava por vir que serviram como restauradores que repudiaram a fase heroica das eras anteriores: as lutas na França em 1831, 1848, 1849 e outros incontáveis momentos por toda a Europa.

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Mantemos que todos os grandes eventos dos tempos recentes são meramente muitas confirmações categóricas e integrais da teoria Marxista e suas previsões. Nos referimos acima a todos os desenvolvimentos que mais uma vez provocaram deserções em larga escala do terreno classista que confundiu aqueles que julgam as posições Stalinistas como completamente oportunistas. Esses desenvolvimentos são o advento de formas centralizadas e totalitárias do capitalismo (econômica e politicamente), planejamento econômico, capitalismo de estado, e regimes burgueses abertamente ditatoriais; ou, por outro lado, o processo de desenvolvimento russo e asiático de pontos de vista sociais e políticos. Portanto vemos que nossa doutrina, nascida de forma monolítica, se encontra em uma conjuntura histórica crucial.

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Qualquer um pode confrontar a teoria Marxista com os eventos históricos desse período vulcânico e provar que é errônea, completamente falha, e portanto qualquer tentativa de guiar os fios do curso da história baseando-se em relações econômicas provou-se um fracasso. Ao mesmo tempo, ele irá também provar que, independente do período histórico, eventos compelem a criação de novas deduções, explicações e teorias, e então a aceitação da possibilidade de propor novos e diferentes meios de ação.

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Uma solução ilusória para as dificuldades do presente é admitir que a teoria básica deve se sujeitar à mudança e que é precisamente hoje o momento de se adicionar novos capítulos na teoria, para que, por um simples capricho de um ato de pensamento, essa situação infavorável seja revertida. Outrossim, é uma aberração que essa tarefa seja assumida por pequenos grupos com números significantes de membros, e pior ainda, resolvida em uma discussão livre que se constitui em uma paródia de níveis liliputianos do parlamentarismo burguês e a famosa batalha de opiniões individuais, que não é um novo desenvolvimento mas sim um absurdo ancião.

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Estamos no momento do mais baixo ponto da curva de potencial revolucionário, estamos décadas de distância do momento certo em que as teorias originais nasceram. Nesse momento, que não possui perspectivas associadas a grande elevação social, não é só a desintegração política da classe proletária mundial um dado lógico da situação, mas é também lógico que alguns pequenos grupos que saibam como manter a linha vermelha da história do grande processo revolucionário, estreitando-se em uma grande curva entre duas revoluções sociais, na condição que tais grupos demonstram que não desejam disseminar nada de original e continuam a aderir às formulações tradicionais do Marxismo.

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Criticismo, dúvida e desafios contra todas as ideias antigas consolidadas foram elementos vigorosos da grande revolução burguesa moderna que surgiu antes em ondas colossais contra as ciências naturais, a ordem social e os poderes políticos e militares, em ordem de avançar e emergir depois com uma iconoclastia reducionista que impulsiona suas ciências da sociedade humana e o curso da história. Isso é justamente o resultado de uma era de alterações profundas que se encontrou montado na Idade Média feudal agrária e na sociedade capitalista moderna industrial. Criticismo foi o efeito ao invés da força motriz dessa luta complexa.

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Dúvida e controle individual sobre a consciência foram as expressões da reforma burguesa contra a tradição e autoridade estabelecida pela Igreja Católica, que tomou a forma do mais hipócrita dos Puritanismos que, sob a bandeira da conformidade religiosa burguesa ou direitos individuais, prometeu e protegeu um novo controle de classe com novas formas de servidão em massa. A revolução proletária prossegue de maneira oposta, em qual a consciência individual é nada e a direção unitária da direção coletiva de ação, tudo.

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Quando Marx disse em suas famosas “Teses sobre Feuerbach” que os filósofos apenas interpretaram o mundo e que cabe a nós mudá-lo, ele não estava falando que vontade transformadora irá conduzir os fatos da transformação, mas que primeiro vem a transformação determinada pelo embate de forças coletivas, e apenas depois a consciência crítica dessa transformação em assuntos individuais. O último não age em virtude de uma decisão que toca cada indivíduo, mas de influências que precedem o conhecimento e a consciência.

A passagem das armas da crítica à crítica das armas precisamente altera por inteiro o objeto pensante das massas militantes, de uma maneira que não apenas rifles e canhões são armas, mas acima de tudo instrumentos reais que são a doutrina comum do partido, uniforme, concreta, e invariável, que somos todos subordinados e presos, pondo um fim ao falatório e discussões.

Do encontro de Milão do Partido Comunista Internacional, realizado em 7 de Setembro, 1952.

Traduzido da versão em espanhol em Março de 2019.

A tradução espanhol originalmente apareceu no jornal El Programa Comunista, 33ª edição.

Fonte:http://www.sinistra.net/lib/upt/elproc/moqa/moqaajobis.html

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