Teorias do Fascismo Alemão

Walter Benjamin

Retirado de: Magia e técnica, arte e política, editora Brasiliense, 2012. Tradução de Sérgio P Rouanet.

Léon Daudet, filho de Alphonse, ele próprio um escritor importante, líder do Partido Monarquista francês, publicou certa vez em sua Action Française um relato sobre o Salão do Automóvel, cuja síntese, embora talvez não nessas palavras, era: “L’automobile c’est la guerre”. O que estava na raiz dessa surpreendente associação de palavras era a idéia de uma aceleração dos instrumentos técnicos, seus ritmos, suas fontes de energia, etc., que não encontram em nossa vida pessoal nenhuma utilização completa e adequada e, no entanto, lutam por justificar-se. Na medida em que renunciam a todas as interações harmônicas, esses instrumentos se justificam pela guerra, que prova com suas devastações que a realidade social não está madura para transformar a técnica em seu órgão e que a técnica não é suficientemente forte para dominar as forças elementares da sociedade. Pode-se afirmar, sem qualquer pretensão de incluir nessa explicação suas causas econômicas, que a guerra imperialista é co-determinada, no que ela tem de mais duro e de mais fatídico, pela distância abissal entre os meios gigantescos de que dispõe a técnica, por um lado, e sua débil capacidade de esclarecer questões morais, por outro. Na verdade, segundo sua própria natureza econômica, a sociedade burguesa não pode deixar de separar, na medida do possível, a dimensão técnica da chamada dimensão espiritual e não pode deixar de excluir as idéias técnicas de qualquer direito de co-participação na ordem social. Cada guerra que se anuncia é ao mesmo tempo uma insurreição de escravos. Que essas reflexões, e outras semelhantes, permeiam hoje em dia todas as questões relativas à guerra, que tais questões têm a ver com a guerra imperialista, pareceria inútil recordar aos autores da coletânea, pois todos eles foram soldados da guerra mundial, e, por mais que possamos polemizar com eles em outros temas, num ponto não pode haver controvérsia: todos eles partem da experiência da guerra. Donde nossa surpresa, desde a primeira página, em encontrar a afirmação de que ‘‘a questão de saber em que século se luta, por que idéias e com que armas, desempenha um papel secundário”. O mais espantoso é que Emst Jünger adere com essa afirmação a um dos princípios fundamentais do pacifismo — um dos mais questionáveis e abstratos. Mas o que está por trás de sua atitude e da de seus companheiros não é tanto um lugar-comum doutrinário, como um misticismo enraizado, que, segundo todos os critérios de um pensamento másculo, não pode deixar de ser considerado profundamente corrupto. Seu misticismo bélico e o ideal estereotipado do pacifismo se equivalem. Não obstante, hoje em dia, mesmo o pacifismo mais tísico é superior num ponto a seu irmão espumando em crises epilépticas: certas ligações com o real, inclusive uma concepção da próxima guerra.

Os autores falam com prazer e com muita ênfase da “primeira guerra mundial”. Mas a obtusidade com que formulam o conceito da próxima guerra, sem circunscrevê-lo com qualquer idéia, mostra como sua experiência absorveu pouco as realidades da guerra de 1914, da qual costumam falar, numa linguagem altamente enfática, como de uma guerra “de alcance planetário”. Esses pioneiros da Wehrmacht quase levam a crer que o uniforme é para eles um objetivo supremo, almejado com todas as fibras do seu coração; comparadas a ele, as circunstâncias em que o uniforme poderia ser utilizado perdem muito de sua importância. Essa atitude se torna mais inteligível quando se considera como a ideologia guerreira representada na coletânea está ultrapassada pelo desenvolvimento do armamentismo europeu. Os autores omitiram o fato de que a batalha de material, na qual alguns deles vislumbram a mais alta revelação da existência, coloca fora de circulação os miseráveis emblemas do heroísmo, que ocasionalmente sobreviveram à grande guerra. A luta de gases, pela qual os colaboradores do livro demonstram tão pouco interesse, promete dar à guerra futura um aspecto esportivo que superará as categorias militares e colocará as ações guerreiras sob o signo do recorde. Sua característica estratégica mais evidente é dar à guerra, da forma mais radical, um caráter de guerra ofensiva. Contra ataques aéreos por meio de gases não existe, ao que se sabe, nenhuma defesa eficaz. Mesmo as medidas individuais de segurança, como as máscaras de gás, são impotentes contra o gás de enxofre e o levisit. De vez em quando ouvimos notícias tranqüilizador as, como a descoberta de aparelhos de escuta extra-sensíveis, capazes de registrar a grandes distâncias o ronco das hélices. Mas, alguns meses depois, anuncia-se a descoberta de um avião silencioso. A guerra de gases se baseará nos recordes de destruição, com riscos levados ad absurdum. Se o inicio da guerra se dará no contexto das normas do direito internacional, depois de uma declaração de guerra, é discutível; em todo caso, seu fim não estará condicionado a limitações desse gênero. Sabemos que a guerra de gases revoga a distinção entre a população civil e combatente, e com ela desaba o mais importante fundamento do direito das gentes. A última guerra mostrou como a desorganização que a guerra imperialista traz consigo ameaça torná-la interminável.

É mais que uma curiosidade, é um sintoma, que um texto de 1930, dedicado “à guerra e aos guerreiros”, omita todas essas questões. Sintoma de um entusiasmo pubertário que desemboca num culto e numa apoteose da guerra, cujos profetas são aqui von Schramm e Günther. Essa nova teoria da guerra, que traz escrita na testa sua origem na mais furiosa decadência, não é outra coisa que uma desinibida extrapolação para temas militares da teoria do “l’art pour l’art”. Mas, se essa doutrina em seu solo original já era um escárnio na boca dos seus apologistas médios, nessa nova fase suas perspectivas são vergonhosas. Imaginemos um participante da batalha do Marne ou um veterano que combateu às portas de Verdun lendo frases desse tipo: “Conduzimos a guerra segundo princípios impuros”, ou “Tornou-se cada vez mais raro combater de homem a homem e tropa contra tropa”, ou “Muitas vezes os oficiais da linha de frente conduziram a guerra sem qualquer estilo”, ou “Com a incorporação, no corpo dos oficiais e dos suboficiais das massas, do sangue inferior, da mentalidade prática e burguesa, em suma, do homem comum, os elementos eternamente aristocráticos da atividade militar foram sendo crescentemente abolidos”. Impossível usar tons mais falsos, colocar no papel idéias mais inábeis, articular palavras mais desprovidas de tato. Mas a culpa do insucesso dos autores justamente nesse ponto, apesar de todas as suas frases sobre elementos eternos e originários, está na pressa tão pouco aristocrática, inteiramente jornalística, com que tentam apropriar-se da atualidade sem terem compreendido o passado. É verdade que existiram na guerra ingredientes de culto. As comunidades teocráticas os conheceram. Seria tão insensato trazer à luz do dia esses elementos submersos, como seria desagradável para esses guerreiros, em sua fuga de idéias, descobrir que o caminho que eles em vão procuram já foi percorrido por um filósofo judeu, Erich Unger, cujas conclusões, obtidas, de modo em parte problemático, a partir de dados da história judaica, reduzem a nada os sangrentos esquemas evocados no livro. Mas formular algo com clareza e chamar as coisas verdadeiramente pelo seu nome está fora do alcance dos autores. A guerra “foge a qualquer economia regida pela inteligência, em sua razão existe algo de sobre-humano, desmedido, gigantesco, algo que lembra um processo vulcânico, uma erupção elementar… uma onda colossal de vida, dirigida por uma força dolorosa, coercitiva, unitária, transbordando sobre campos de batalha, que hoje já se tornaram míticos, canalizada para tarefas que ultrapassam os limites do que hoje pode ser compreendido”. São as palavras de um noivo loquaz que não sabe abraçar sua amada. No fundo, todos esses autores abraçam mal o pensamento. Precisamos levá-lo até eles, e é o que fazemos com esta resenha.

Ei-la, a guerra: a guerra, tanto a “eterna”, de que tanto se fala, como a “última” — a mais alta expressão da nação alemã. A essa altura, já deve ter ficado claro que atrás da guerra eterna há a idéia da guerra ritual e, atrás desta, a idéia da guerra técnica, e também que os autores não conseguiram compreender essas relações. Mas a última guerra tem uma característica especial. Ela não foi somente a guerra das batalhas de material, foi também a guerra perdida. Perdida, num sentido muito particular, pelos alemães. Outros povos podem afirmar que lutaram uma guerra a partir da sua substância mais íntima. Mas nunca nenhum afirmou que a perdeu a partir da sua substância mais íntima. O que há de singular nesta última fase do confronto com a guerra perdida, que desde 1919 convulsiona a Alemanha, é que é justamente a derrota que é mobilizada pela “germanidade”. Podemos falar em última fase porque as tentativas de confrontar-se com a perda da guerra registraram uma clara evolução. Elas começaram com a tentativa de transmutar a derrota numa vitória interna, através da confissão de uma culpa generalizada para toda a humanidade. Essa política, que entregou, de passagem, seu manifesto ao Ocidente, no momento em que ele caminhava para sua decadência, era o reflexo fiel da “revolução” alemã feita pela vanguarda expressionista. Depois veio a tentativa de esquecer a guerra perdida. A burguesia deitou-se, arquejante, do outro lado, e que travesseiro é mais macio que o romance? Os sustos da última guerra se transformaram em penugem para rechear colchões, nos quais todos os barretes de dormir podiam deixar seus traços. Enfim, o que distingue a tentativa atual das anteriores é a tendência a levar mais as sério a perda da guerra que a própria guerra. O que significa ganhar ou perder uma guerra? Nas duas palavras, chama a atenção o sentido duplo. O primeiro, o sentido manifesto, significa decerto o desfecho, mas o segundo, que dá sua ressonância especial a ambas as palavras, significa a guerra em sua totalidade, indica como o seu desfecho para nós altera seu modo de existência para nós. Esse segundo sentido diz: o vencedor conserva a guerra, o derrotado deixa de possuí-la; o vencedor a incorpora a seu patrimônio, transforma-a em coisa sua, o vencido não a tem mais, é obrigado a viver sem ela. E não somente a guerra em geral, mas todas as suas peripécias, cada uma de suas jogadas de xadrez, inclusive as mais sutis, cada uma de suas escaramuças, mesmo as menos visíveis. Ganhar ou perder uma guerra, segundo a lógica da linguagem, é algo que penetra tão fundo em nossa existência que nos torna, para sempre, mais ricos ou mais pobres em quadros, imagens, invenções. Pode-se avaliar o que essa perda significa se levarmos em conta que perdemos uma das maiores guerras da história, uma guerra vinculada a toda a substância material e espiritual do povo.

Sem dúvida, não podemos dizer que os autores editados por Jünger deixaram de avaliar essa perda. Mas como se comportaram eles em face das suas monstruosidades? Eles não pararam de lutar. Continuaram celebrando o culto da guerra quando não havia mais verdadeiros inimigos. Foram dóceis aos apetites da burguesia, que desejava ansiosamente a “destruição do Ocidente” como um colegial que apaga com um borrão de tinta uma questão mal respondida, e difundiam a destruição, pregavam a destruição, da qual haviam escapado. Não lhes foi dado em nenhum momento olhar de frente o que fora perdido, e limitaram-se a segurá-lo com todas as forças, convulsivamente. Do princípio ao fim, lutaram amargamente contra a razão. Deixaram passar a grande oportunidade dos vencidos, a de transpor a luta para uma outra esfera, como os russos, até que o momento já houvesse passado e os povos tivessem novamente se transformado em parceiros de tratados comerciais. “A guerra hoje em dia não é mais conduzida, e sim administrada”, diz um dos autores, queixosamente. Esse erro seria corrigido no após-guerra alemão. Esse após-guerra foi ao mesmo tempo um protesto contra tudo o que acontecera antes e contra os civis, cujo selo era visto em toda parte. Antes de mais nada, a guerra tinha que ser privada do seu odioso elemento racional. E, de fato, esses homens se banhavam nos vapores que emanavam das mandíbulas do Lobo Fenris. Mas não puderam suportar a comparação entre esses vapores e os das granadas de mostarda. Sobre o pano de fundo do serviço militar nas casernas e das famílias empobrecidas nos bairros populares, o fascínio protogermânico pelo destino recebeu um clarão de coisas putrefatas. E, mesmo sem analisar materialisticamente esse fascínio, a intuição não-contaminada de um espírito livre, culto e verdadeiramente dialético, como o de Florens Christian Rang, cuja vida contém mais “germanidade” que todo esse exército de desesperados, conseguiu enfrentá-lo com frases definitivas. “Os demônios da crença no destino, para a qual a virtude humana é vã. — A noite escura de um desafio, que consome num incêndio divino, universal, o que foi conquistado pelos poderes da luz… a aparente vontade senhorial contida nessa idealização da morte nos campos de batalha, que destrói friamente a vida, trocando-a pela idéia — essa noite grávida de nuvens, que há milênios nos recobrem e que para iluminar nosso caminho acende, em vez de estrelas, relâmpagos ensurdecedores, confusos, depois dos quais a noite fica mais escura e asfixiante: essa cruel concepção do mundo, da morte universal, e não da vida universal, que no idealismo alemão alivia o horror com a idéia de que atrás das nuvens existe um céu estrelado — essa orientação fundamental do espírito alemão é profundamente desprovida de vontade, diz coisas que não pensa, é um rastejar, um acovardar-se, um desejo de não saber, de não viver e de não morrer… Pois é essa a dúbia atitude alemã com relação à vida: poder jogá-la fora, quando ela não custa nada, num momento de embriaguez, num gesto que ao mesmo tempo assegura o sustento dos que ficaram e aureola a vítima com uma glória ilusória.” Porém, quando se lê no mesmo contexto: “Duzentos oficiais, dispostos a sacrificar sua vida, teriam bastado para reprimir a Revolução, em Berlim e outras cidades — mas não apareceu nenhum. Em teoria, muitos deles gostariam de ter salvo algumas vidas, mas na realidade nenhum o desejou a ponto de dar o exemplo, de transformar-se em líder, ou de agir sozinho. Preferiram deixar que lhes arrancassem as dragonas, na rua”, não nos pode passar despercebida a afinidade entre essas palavras e as dos discípulos de Jünger. O que é certo é que quem escreveu esse texto conhecia por sua própria experiência as atitudes e tradições desses autores. E talvez partilhasse sua hostilidade contra o materialismo até o ponto em que ela criou a linguagem da batalha de material.

Quando no início da guerra o idealismo foi entregue pelo Estado e pelo governo como uma mercadoria, as tropas tiveram cada vez mais necessidade de requisitar esse material. Seu heroísmo se tornou cada vez mais sinistro, mortal, cinzento como o aço, e cada vez mais longínqua e nebulosa ficava a esfera da qual acenavam a glória e o ideal, ao mesmo tempo que se tornava cada vez mais rígida a conduta dos que se sentiam menos como tropas da guerra mundial que como executores do após-guerra. “Conduta” — em tudo o que dizem, esse termo aparece de três em três palavras. Ninguém negaria que os soldados também têm uma conduta. Mas a linguagem é uma pedra de toque para a conduta de cada um de nós, e não somente, como muitas vezes se supõe, para a conduta de quem escreve. A conduta dos que se juntaram nesse livro não passa esta prova. Imitando os diletantes aristocráticos do século XVII, Jünger pode dizer que a linguagem alemã é uma linguagem primordial — a maneira como essa idéia é expressa contém um acréscimo implícito, o de que, como tal, ela comporta uma invencível desconfiança com relação à civilização e ao mundo moral. Mas como pode essa desconfiança comparar-se com a dos seus compatriotas, quando a guerra lhes é apresentada como uma “poderosa revisora”, que “sente o pulso do tempo”, quando eles são proibidos de “rejeitar uma conclusão comprovada”, ou obrigados a aguçar seu olhar para que possam ver as “ruínas” atrás do “verniz incandescente”? No entanto o que é mais vexatório que todos esses insultos à inteligência, nesse edifício intelectual supostamente ciclópico, é a fácil loquacidade da forma, “ornando” cada um dos artigos, e mais penosa ainda, a mediocridade do conteúdo. “Os mortos de guerra”, dizem-nos os autores, “ao tombarem passaram de uma realidade imperfeita a uma realidade perfeita, da Alemanha temporal à Alemanha eterna.” Conhecemos a Alemanha temporal, mas a eterna estaria em maus lençóis se tivéssemos que retratá-la a partir dos depoimentos aqui prestados com tanta volubilidade. Com que facilidade os autores adquiriram “o firme sentimento de imortalidade”, obtiveram a certeza de que “as abominações da última guerra foram transformadas em algo de grandioso e terrível”, perceberam o simbolismo do “sangue fervendo para dentro”! No máximo, eles lutaram na guerra, que agora celebram. Mas não podemos aceitar que alguém fale da guerra sem conhecer outra coisa que a guerra. Temos o direito de perguntar, radicais à nossa moda: De onde vêm vocês? E o que sabem da paz? Alguma vez encontraram a paz numa criança, numa árvore, num animal, como encontraram um posto avançado num campo de batalha? E sem esperar a resposta, diríamos: Não! Não que vocês não fossem capazes, nesse caso, de celebrar a guerra, e mesmo mais apaixonadamente do que hoje. Porém não seriam capazes de celebrar a guerra como o fazem agora. Como teria sido o “depoimento de Fortinbrás sobre a guerra? Podemos deduzir seu testemunho a partir da técnica de Shakespeare. Assim como ele revela o amor de Romeu por Julieta, em todo o fulgor da sua paixão, através do artifício de mostrar um Romeu já anteriormente apaixonado, apaixonado por Rosalinda, assim também Fortinbrás teria começado com um louvor da paz, uma apologia tão sedutora, tão melodiosamente suave, que cada um dos seus ouvintes se perguntaria, assim que ele elevasse sua voz para defender a guerra: que forças poderosas e desconhecidas são essas que levam esse homem tão completamente impregnado pelas alegrias da paz a propor a guerra? Não há nada disso no livro. A palavra foi dada a bucaneiros profissionais. Seu horizonte é flamejante, mas estreito.

Que vêem eles nessas chamas? Eles vêem — e nisso podemos confiar em E. G. Jünger — uma metamorfose. “Linhas de decisão psíquica atravessam a guerra; à transformação da guerra corresponde uma transformação do combatente. Ela se torna visível quando comparamos os rostos leves, impetuosos, entusiásticos dos soldados de agosto de 1914 com as fisionomias mortalmente cansadas, implacavelmente tensas, esquálidas, dos participantes da guerra de material, de 1918. Levadas às últimas conseqüências, essa guerra finalmente chegou a seu termo, e dela emergem esses rostos inesquecíveis, formados e movidos por poderosas convulsões espirituais, percorrida uma via crucis das quais cada etapa e cada batalha é como se fosse o hieróglifo de um violento e infindável trabalho de destruição. Aqui aparece aquele tipo de soldado constituído pelas duras, sombrias, sangrentas e incessantes batalhas de material. Esse tipo se caracteriza pela dureza nervosa do combatente nato, pela expressão da responsabilidade solitária, pelo isolamento das suas almas. Nessa luta, que prosseguia em camadas cada vez mais profundas, sua autoridade se preservou. O caminho percorrido era estreito e perigoso, mas era um caminho que conduzia ao futuro.” Quando encontramos nessas páginas formulações exatas, acentos genuínos, explicações plausíveis, é porque se deu enfim algum contato com a realidade, essa mesma realidade que, segundo Emst Jünger, é a da mobilização total e, segundo Ernst von Salomon, corresponde à paisagem do front. Um publicista liberal, que há pouco tempo tentou caracterizar esse novo nacionalismo com a fórmula “heroísmo por tédio”, não foi, visivelmente, ao fundo da questão. O tipo de soldado acima descrito é real, é uma testemunha que sobreviveu à grande guerra, e foi de fato a paisagem do front, sua verdadeira pátria, que ele defendeu no após-guerra. Essa paisagem merece um exame mais prolongado.

Precisamos dizê-lo, com toda a amargura: com a mobilização total da paisagem, o sentimento alemão pela natureza experimentou uma intensificação inesperada. Os gênios da paz, que a habitavam tão sensorialmente, foram evacuados, e tão longe quanto nosso olhar podia ir além dos cemitérios, toda a região circundante tinha se transformado em terreno do idealismo alemão, cada cratera produzida pela explosão de uma granada se convertera num problema, cada emaranhado de arame construído para deter a progressão do inimigo se convertera numa antinomia, cada farpa de ferro se convertera numa definição, cada explosão se convertera numa tese, com o céu, durante o dia, representando o forro cósmico do capacete de aço e, de noite, a lei moral sobre nós. Com lança-chamas e trincheiras, a técnica tentou realçar os traços heróicos no rosto do idealismo alemão. Foi um equívoco. Porque os traços que ela julgava serem heróicos eram na verdade traços hipocráticos, os traços da morte. Por isso, profundamente impregnada por sua própria perversidade, a técnica modelou o rosto apocalíptico da natureza e reduziu-a ao silêncio, embora pudesse ter sido a força capaz de dar-lhe uma voz. A guerra como abstração metafísica, professada pelo novo nacionalismo, é unicamente a tentativa de dissolver na técnica, de modo místico e imediato, o segredo de uma natureza concebida em termos idealistas, em vez de utilizar e explicar esse segredo, por um desvio, através da construção de coisas humanas. Na cabeça desses homens, o “destino” e o “heroísmo” se relacionam como Gog e Magog, e suas vítimas não são apenas os filhos dos homens, mas os filhos das idéias. Tudo o que foi pensado de puro, de sóbrio e de ingênuo sobre o melhoramento da convivência humana entra nas goelas desses ídolos canibais, que reagem a esse festim com os arrotos dos seus morteiros de 42 cm. Algumas vezes os autores encontram uma certa dificuldade em conciliar o heroísmo com a guerra de material. Mas nem todos sentem essa dificuldade, e nada é mais comprometedor que as digressões lamuriantes com que exprimem sua decepção sobre a “forma da guerra”, a “guerra de material, cegamente mecânica”, da qual os espíritos mais nobres estavam “visivelmente cansados”. Os poucos que tentam ver as coisas como elas são mostram claramente como o conceito do heróico se transformou imperceptivelmente, e até que ponto as virtudes da dureza, da taciturnidade, da implacabilidade, por eles celebradas, não são tanto as virtudes da guerra, como as da luta de classes. O que se forjou aqui, a princípio sob a máscara do voluntário, na guerra mundial, e depois sob a do mercenário, no após-guerra, foi na verdade um competente militante fascista na luta de classes, e o que os autores entendem por nação, uma classe senhorial apoiada nesses indivíduos, que não é responsável perante ninguém e muito menos perante si mesma, e instalada num trono excelso, tem em sua fisionomia os traços de esfinge do produtor, que corre o risco de ser o único consumidor das suas mercadorias. A nação dos fascistas, com seu rosto de esfinge, constitui-se num novo mistério da natureza, de caráter econômico, ao lado do antigo, que, longe de se iluminar com a luz da técnica, revela agora os seus traços fisionômicos mais ameaçadores. No paralelogramo de forças constituído pela natureza e pela nação, a diagonal é a guerra.

É compreensível que para os melhores e mais refletidos desses autores se coloque a questão do “controle da guerra pelo Estado”. Pois, nessa teoria mística da guerra, o Estado desempenha naturalmente um papel importante. A palavra “controle” não é concebida, é claro, num sentido pacifista. Ao contrário, exige-se do Estado que desde já ele se adapte, em sua própria estrutura e em seu comportamento, e delas se mostre digno, àquelas forças mágicas que ele precisa mobilizar durante a guerra. De outro modo, ele não conseguiria colocar a guerra a serviço dos seus fins. O pensamento autônomo desses autores começa com a verificação do fracasso do Estado no que diz respeito à guerra. As formações surgidas no após-guerra, híbridas entre confrarias religiosas e agências regulares do poder público, consolidaram-se rapidamente em bandos independentes e desvinculados do Estado, e os magnatas financeiros da inflação, começando a pôr em dúvida a competência do Estado como protetor dos seus bens, souberam apreciar a seu devido valor as ofertas desses bandos, sempre disponíveis, como arroz e nabos, graças à intermediação de instâncias privadas ou do exército. O livro aqui examinado assemelha-se ao prospecto de propaganda, ideologicamente formulado, de um novo tipo de mercenários, ou antes, de condottieri. Um dos seus autores explica com grande candura: “O bravo soldado da guerra dos Trinta Anos vendia… seu corpo e sua vida, o que é muito mais nobre do que vender talento e opiniões”. Mas, quando o autor prossegue, afirmando que o novo mercenário do após-guerra não se vende, mas se dá, essa afirmação deve ser compreendida, segundo a lógica da frase anterior, no sentido de que seu soldo é relativamente mais compensador. Um soldo que deve ter seduzido esses guerreiros tanto quanto a novidade técnica do trabalho: engenheiros da guerra, a serviço da classe dominante, eles são a contrapartida dos dirigentes da CUT. Sabe Deus que sua liderança deve ser levada a sério, que sua ameaça nada tem de risível. No piloto de um único avião carregado com bombas de gás concentram-se todos os poderes — o de privar o cidadão da luz, do ar e da vida — que na paz estão divididos entre milhares de chefes de escritório. O modesto lançador de bombas, na solidão das alturas, sozinho consigo e com seu Deus, tem uma procuração do seu superior, o Estado, gravemente enfermo, e nenhuma vegetação volta a crescer onde ele põe a sua assinatura. Esse é o modelo do líder “imperial’’, sonhado pelos autores.

A Alemanha não pode aspirar a nenhum futuro antes de destruir os traços de medusa da figura que vem ao seu encontro. Destruí-los? Talvez apenas torná-los menos rígidos. Isso não significa agir pela exortação e pelo amor, que não cabem aqui, nem preparar o caminho para os argumentadores e para os especialistas da persuasão. Significa, sim, dirigir todas as luzes da linguagem e da razão para iluminar aquela “vivência primordial”, de cuja surda escuridão a mística da morte universal rasteja, com suas mil patas repugnantes, em direção à luz do dia. A guerra que esse clarão ilumina não é nem a “eterna”, que os novos alemães invocam, nem a “última”, com que se entusiasmam os pacifistas. Na realidade, é apenas isto: a única, terrível e derradeira oportunidade de corrigir a incapacidade dos povos para ordenar suas relações mútuas segundo o modelo das suas relações com a natureza, através da técnica. Se o corretivo falhar, milhões de corpos humanos serão despedaçados pelo gás e pelo aço — porque eles o serão, inevitavelmente — e nem mesmo os habitues dos assustadores poderes ctônicos, que guardam seu Klages em mochilas de campanha, viverão um décimo do que é prometido pela natureza a seus filhe» menos curiosos e mais sensatos, que não manejam a técnica como um fetiche do holocausto, mas como uma chave para a felicidade. Estes darão uma prova de sua sensatez quando se recusarem a ver na próxima guerra um episódio mágico e quando descobrirem nela a imagem do cotidiano; e, com essa descoberta, estarão prontos a transformá-la em guerra civil: mágica marxista, a única à altura de desfazer esse sinistro feitiço da guerra.

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