O Fracasso da Classe Trabalhadora

No ano que se seguiu imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, 1946, Anton Panekoek em O Fracasso da Classe Trabalhadora, analisa a falha―porém pode-se dizer com mais certeza, o receio―da classe trabalhadora em organizar-se como força motriz revolucionária em oposição ao Nacional-socialismo na Alemanha, isto na primeira parte, onde ele apresenta a ideia principal do artigo; a defesa dos métodos de luta genuinamente organizados pela classe trabalhadora.

Em antigas discussões políticas o problema já foi exposto: Por que a classe trabalhadora falhou em seu dever histórico? Por que não ofereceu resistência ao Nacional-socialismo na Alemanha? Por que não há nenhum traço de movimento revolucionário entre os trabalhadores estadunidenses? O que aconteceu com a vitalidade social da classe trabalhadora mundial? Por que as massas por todo o mundo não parecem mais capazes de iniciar nada que se volte à sua própria libertação? Luz foi posta sobre o assunto pelas considerações conseguintes.

É fácil se perguntar: por que os trabalhadores não se ergueram contra a ameaça do fascismo? Para lutar é necessário uma visão de resultado positivo. Em oposição ao fascismo havia duas alternativas: manter, ou retornar ao capitalismo avelhantado, com seu desemprego, crises, corrupção, e miséria—enquanto o Nacional Socialismo conservou a própria imagem de um regime de trabalho anticapitalista, sem desemprego, um reino de grandeza nacional, com política de comunidade que levariam à uma revolução socialista. Enfim, a questão mais profunda a ser feita é: por que os trabalhadores alemães não fizeram a própria revolução?

Bem, eles já haviam experimentado uma revolução: a de 1918. Essa experiência ensinou-lhes a lição de quem nem o Partido Social Democrata (Sozialdemokratische Partei Deutschlands) nem os sindicatos seriam o instrumento de sua liberação; apenas instrumentos de restauração do capitalismo. Então o que eles fizeram? O Partido Comunista (Kommunistische Partei Deutschland) também não era o caminho, apenas defendia o sistema capitalista de estado russo, com falta de liberdade ainda maior.

Poderia ter sido diferente? O objetivo do Partido Socialista na Alemanha (Deutschsozialistische Partei), assim como os de outros países, era o socialismo de estado. De acordo com o programa a classe trabalhadora tinha que conquistar dominância política, e assim seu poder sobre o estado, deveria organizar a produção em um sistema econômico planificado e dirigido pelo estado, o instrumento de tal conquista seria o Partido Socialista, desenvolvido já em um corpo de 300 mil membros, com um milhão de sindicalistas e três milhões de eleitores como sustentáculo, liderados por um aparato de políticos, agitadores e editores ansiosos para substituir os antigos líderes. Segundo o programa, eles deveriam legalmente expropriar a classe capitalista e organizar a produção em um sistema centralmente planejado.

É claro que em tal sistema, os trabalhadores, embora tenham o pão diário garantido, estão imperfeitamente liberados. Os alto escalões da sociedade foram alterados, mas as fundações que sustentam o velho edifício continuam os mesmos: fábricas com trabalhadores assalariados sob o comando de diretores e gerentes. O socialista inglês G.D.H. Cole, que influenciou os sindicatos com seus estudos sobre socialismo e várias formas de reforma industrial, descreve:

“Todo o povo não seria mais capaz que um corpo de acionistas em uma grande empresa na administração de uma indústria… seria necessário, mais ainda no socialismo do que no capitalismo, confiar o manuseio industrial à experts assalariados, escolhidos por seu conhecimento especializado e habilidade em áreas específicas do trabalho… não há motivo para supor que os métodos de indicação dos gerentes em indústrias socializadas seria diferente daqueles já usados na indústria capitalista… Não há motivo para supor que a socialização de qualquer indústria signifique qualquer mudança em seu corpo gerencial.”

Desse modo, os trabalhadores ganharam novos mestres no lugar dos antigos. Mestres bons e humanos ao invés dos maus e vorazes de hoje. Apontados por um governo socialista ou escolhido por eles próprios. Mas, uma vez escolhidos, eles devem ser obedecidos. Os trabalhadores não são donos de seu próprio trabalho, tampouco donos dos meios de produção. Acima deles repousa o poder decisivo de uma burocracia estatal de líderes e gerentes. Tal estado das coisas pode atrair o trabalhador contanto que ele se sinta sem forças contra o poder dos capitalista: por isso que em sua primeira revolta no séc. XIX, esse era o objetivo. Ele não tinha a força necessária para expelir os capitalistas para fora do comando das instalações de produção, então a saída era o socialismo de estado, um governo de socialistas expropriado capitalistas. 

Agora que os trabalhadores percebem que o socialismo de estado significa novos grilhões, eles se erguem ante a difícil tarefa de encontrar e abrir novas estradas. Isso não é possível sem uma profunda revolução das ideias, acompanhada por um conflito muito mais interno. Não impressiona que o vigor de lutar afrouxa, que eles hesitam, divididos e incertos, parecendo ter perdido toda sua energia.

O capitalismo, de fato, não pode ser aniquilado por uma mudança de comandantes, mas com a abolição do comando. A verdadeira liberdade dos trabalhadores consiste no seu controle direto dos meios de produção. A essência do futuro de uma comunidade mundial livre não é aquela em que as massas trabalhadoras conseguem comida o suficiente, mas que elas controlem diretamente os meios de produção, coletivamente. O conteúdo real de suas vidas é seu trabalho produtivo; a mudança fundamental não é a mudança no reino passivo do consumo, mas no reino ativo da produção. Ante eles o problema surge em como unir liberdade e organização; como combinar o controle dos trabalhadores sobre o trabalho em uma integridade social planejada. Como organizar a produção, em cada loja ou em toda a economia mundial, de uma maneira que eles mesmos fazem parte de uma comunidade colaboradora que regula o próprio trabalho. Controle de produção significa que o corpus de trabalhadores, técnicos e experts com o mesmo esforço coletivo gerem uma firma em um nível de aparato técnico ao mesmo tempo que são os gerentes em si. A organização em entidade social é então realizada por delegados de fábricas separadas, pelos chamados conselhos de trabalhadores, discutindo e decidindo os assuntos comuns. O desenvolvimento de tal organização de conselhos irá proporcionar a solução do problema, mas esse desenvolvimento trata-se de um processo histórico, levando tempo e requerendo uma transformação profunda de visão e caráter.

Agora, conseguimos entender porque os antigos movimentos de trabalhadores não poderiam ter sucesso. Quando a visão é muito estreita, não é possível ter-se liberação real. Quando o objetivo é uma semi liberação, as forças internas são insuficientes para trazer resultados fundamentais. Isto posto, o movimento socialista alemão, incapaz de prover aos trabalhadores com armas poderosas o suficiente para lutar com sucesso o monopólio do capital, tinham que sucumbir. A classe trabalhadora teve que procurar novos caminhos. Mas a dificuldade de se livrar associar da rede de ensinos socialistas impostos por velhos partidos e velhos slogans os tornaram impotentes contra o capitalismo agressivo, e trouxeram um período de declínio contínuo.

Portanto o que é chamado fracasso da classe trabalhadora é o fracasso de suas estreitas visões socialistas. A verdadeira luta por liberação há de começar; o que ficou conhecido como movimento trabalhador no século que deixamos para trás, foi apenas uma série de escaramuças de guardas avançadas. Intelectuais, que estão acostumados a reduzir a luta social à mais abstrata e simples fórmula, estão inclinados a subestimar o tremendo escopo da transformação social ante nós. Acham eles muito mais fácil colocar o nome certo na urna. Esses senhores esquecem que a revolução profunda deve ser feita nas massas trabalhadoras; com visão clara, solidariedade, perseverança e coragem, com espírito de luta orgulhoso, necessário para eliminar o poder físico e espiritual imenso do capitalismo.

Os trabalhadores do mundo possuem dois inimigos poderosos, duas forças que se dobram contra eles: o capitalismo monopolista dos Estados Unidos e Inglaterra, e o capitalismo de estado Russo. O primeiro se desvia rumo à social ditadura camuflada em formas democráticas; o último se proclama abertamente uma ditadura, com a simples adição “do proletariado”, embora ninguém acredite nisso de fato. Ambos tentam manter os trabalhadores em um estado de fidelidade profunda, agindo de acordo com o comando dos líderes do partido, o primeiro pela ajuda do programa socialista de partidos socialistas, o último pelos slogans e truques do Partido Comunista. A tradição da luta glorioso ajuda-os a manter-se dependentes de ideias obsoletas. Na competição por dominação mundial, cada um tenta manter o trabalhador embaixo de sua asa, gritando contra capitalismo aqui, ou contra a ditadura aqui. 

No despertar da resistência contra ambos, os trabalhadores começam a perceber que sua luta pode ter sucesso ao aderir e proclamar os princípios exatamente opostos, o de colaboração de personalidades livres e iguais. Deles é o dever de encontrar a maneira de como esse princípio será executado por ação prática.

A questão principal aqui é se existem indicativos de um despertar do espírito de luta da classe trabalhadora. Então devemos deixar o campo das picuinhas partidárias, agora simplesmente usadas para enganar as massas, e prestar atenção ao campo de interesses econômicos, onde os trabalhadores batalham em sua amarga guerra por condições de vida melhores. Aqui vemos que com o desenvolvimento de pequenos negócios em grandes empresas, os sindicatos deixam de ser instrumentos da luta dos trabalhadores. Nos tempos atuais essas organizações se tornam órgãos em que o monopólio capitalista dita seus termos à classe trabalhadora.

Quando os trabalhadores começarem a perceber que os sindicatos não podem liderar a luta contra o capital, eles enfrentarão a tarefa de praticar novas formas de luta. Essas novas formas são as greves de risco. Onde eles expelem a direção da mão das antigas lideranças e organizações, aqui eles tomam a iniciativa pelas próprias mãos; aqui eles têm que pensar em tempo e maneiras, para tomar decisões, trabalhar na propaganda, na extensão, e dirigir as ações eles mesmos. Greves de risco são explosões espontâneas da luta de classes contra o capitalismo, embora que sem objetivos mais amplos no momento; mas personificam um novo caráter das já rebeldes massas: autodeterminação ao invés da determinação de líderes, autoconfiança ao invés de obediência, espírito de luta de aceitar o que é ditado de cima, solidariedade indestrutível e união com os camaradas ao invés de dever imposto por filiação. A unidade de ação e greve é, claro, a mesma unidade da produtividade do trabalho diário; é o trabalho comum, o interesse comum contra o mestre capitalista que os coage a agir com um. Nessas discussões e decisões, todas capacidades individuais, todas as forças de caráter e mente dos trabalhadores, exaltadas e esforçando-se ao máximo, cooperam por um bem comum.

Nas greves de risco nós poderemos ver o inicio de uma nova orientação prática da classe trabalhadora, uma nova tática, o método de ação direta. Elas representam a única rebelião verdadeira do homem contra o peso acachapante do capital que domina o mundo. É óbvio que em greves de pequena escala, a maioria serão debandadas sem conseguir nada de significante, apenas avisos. A eficiência depende da sua extensão com as massas; apenas o medo de extensão ad infinitum pode compelir o capital a fazer concessões. Se a pressão do explorador capitalista aumentar (ele irá garantir de que isso aconteça!) a resistência terá que dobrar de tamanho e envolver massas maiores. Quando a greve tomar dimensões que disturbem seriamente a ordem social, quando ela atacar o capitalismo em sua pura essência, o controle sobre o comércio, os trabalhadores terão que confrontar o poderio estatal com todos seus recursos. Então a greve deve assumir um caráter político; elas devem expandir seu campo de visão social; seus comitês de greve, personificando a comunidade de classes, assumem funções mais amplas, tomando a forma de conselhos de trabalhadores. A revolução social e o desmembramento do capitalismo, vem à tona.

Existe alguma razão para esperar que tal desenvolvimento revolucionário ocorra nos tempos futuros através de condições que nos faltavam até então? Podemos, com alguma probabilidade, indicar algumas dessas condições. Nos escritos de Marx, extraímos a seguinte conclusão: um sistema de produção não perece até que todas as suas possibilidades inatas tenham se desenvolvido. Na persistência do capitalismo, nós agora começamos a detectar algumas verdades mais profundas nessa conclusão, mais do que antes. Enquanto o sistema capitalista conseguir manter as massas vivas, elas não irão sentir a necessidade de livrar-se dele. Ele é capaz de fazer isso enquanto conseguir se expandir seu reino para as mais variadas partes do globo. Sem embargo, enquanto metade da população mundial viver fora do capitalismo, sua tarefa não terá acabado. Os vários centenas de milhares que vivem nas planícies do Oriente e Sul da Ásia ainda vivem em condições pré-capitalistas. Enquanto poder sustentar um mercado que pague por ferrovias, locomotivas, caminhões, maquinário e fábricas, o empreendedorismo capitalista, especialmente nos Estados Unidos, irá prosperar e expandir. 

A necessidade de luta revolucionária irá se impor uma vez que o capitalismo engolfar o grosso da humanidade, quando a expansão se tornar cada vez mais difícil. A ameaça de destruição total nesse último estágio do capitalismo faz a luta uma necessidade para toda classe produtiva da sociedade, camponeses, intelectuais e trabalhadores. O que está condensado aqui nessas curtas sentenças é um complexo processo histórico que preenche o período revolucionário, preparado e acompanhado por mudanças fundamentais em ideais básicas. Esses desenvolvimentos devem ser estudados cuidadosamente por todos aqueles que desejam comunismo sem ditadura, organização na base da comunidade livre, representa o futuro da raça humana.

Anton Pannekoek, 1946.

Traduzido de: https://www.marxists.org/archive/pannekoe/1946/failure-working-class.htm

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